terça-feira, 9 de junho de 2015

Bonito Paradoxo

Conheço alguns quantos que não reconhecem a data 25 de abril pelo seu real significado. São mesmo mais do que alguns, infelizmente -digo eu!- pelo que vejo e ouço. Eles não percebem, julgo até, que acham graça a não perceber -e a ser do contra!- essa coisa do dia da liberdade e dos cravos, que nos dá, ainda, um feriado laboral.

"É coisa de velhos! Das canções do Zeca Afonso! Da esquerda! dos comunas! Da canção do Paulo de Carvalho que não é aquela da fogueira com os meninos... Do velho Soares que não se cala, quando devia estar de pantufas em casa!!!", dizem com a arrogância da certeza que só a ignorância conforta - sim! Nem os velhos desses tempos escapam. Porque ser velho nos novos dias de hoje é ser um encargo inútil para a sociedade ou um incrível chato (repleto de senilidade) inconveniente para o politicamente correcto e para os tempos mediáticos dos comentadores especialistas em especialidades ou dos taxistas amadores no facebook.

Da minoria que no antigo regime governava a maioria - o povo!(palavra tão fora de moda, agora)- passamos para um governo que representa a maioria.

E tudo mudou!

O que era necessariamente básico - o sufrágio universal directo, a liberdade de expressão (crítica e reivindicação), a electricidade, água e saneamento, o ensino universal e, a saúde para todos acessível- banalizou-se - afinal já lá vão mais de 40 anos!

Soares que lutou pela existência da democracia, pela existência do PPD/PSD e do CDS, pelo fim da unicidade sindical, pela diminuição do poder dos militares e pela adesão à CEE, é velho!
Tal como churchill não servia em tempo de paz, Soares chateia pela sua obsessão pela liberdade, igualdade.

Já vamos noutra!

Damos, naturalmente, mais atenção às falhas do sistema democrático, do que às suas óbvias vantagens, pois estas são aparentemente inalienáveis.

E com alguma razão afinal a classe política, entre muitas outras, falhou em algumas coisas.
As minorias - outras, que não as do antigamente, mas nem sempre as melhores - ganham representação, não só nos meios institucionais, mas, sobretudo, nos meios mediático/sociais.
Gostamos de qualificados tecnocratas, porque nos conforta mais a proximidade com a ciência do que a subjetividade da decisão ideológica.

Não me canso de lembrar que os meus adversários mais vezes me inquiriram sobre as minhas qualificações, do que sobre os resultados do meu trabalho.

Que as redes sociais nos Açores falam mais de transportes aéreos do que em desemprego.
Tudo se desproporciona.

Cultivamos o inconseguimento colectivo português, sempre conjugado na terceira figura do plural: "eles!"
"Eles, os políticos corruptos!"
"Eles, os empresários incompetentes e gananciosos!"
"Eles, o povo ingovernável"

Nada escapa à crítica ou à reivindicação.

Muitos desses recusam-se orgulhosamente a usar o cravo na lapela.

Muitos lembram saudosamente o antigo regime que não conheceram como rejeição ao atual sistema.
São ignorantes!

Não percebem o bonito paradoxo desta rejeição.

Afinal a celebração do 25 de Abril é isso mesmo...

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