domingo, 28 de fevereiro de 2016

A gelatina política e a crise das democracias ocidentais


Como compreender os mais recentes sucessos dos fenómenos populistas como Trump, Le Pen, Syrisa e até mesmo Bernie Sanders, entre outros, nas democracias ocidentais?
Análises não faltam sobre este assunto, desde as de enorme qualidade até às simplesmente medíocres, desde a esquerda consequente - que aponta para enfraquecimento das instituições democráticas face ao poder económico e interesses pessoais, o que leva a uma sub-representação dos cidadãos no processo governativo -; à direita “central” que considera existir uma degradação da moralidade na política e nos políticos que decidem, ignorando os factos, motivados pela ambição pessoal, ideologias bacocas e pelo compadrio partidário.
Mais curioso ainda é que à medida que os analistas de esquerda e de direita se tornam mais “inconsequentes” e menos “centrais”, ou seja mais radicais, mais o seu discurso antipolítica conflui. Talvez em todas as perspetivas exista algum fundo de razoabilidade.
Parece-me sensato assinalar algumas partes que me parecem corretas num artigo, do dia 23 do corrente mês, de Paulo Rangel sobre os motivos do sucesso do fenómeno Trump: A primeira é um cansaço enorme do eleitorado com a classe política, com os políticos e com a política. A segunda é a alta mediatização da política, que fez erodir os mecanismos de temperança e moderação da representação e aproximou as democracias hodiernas das clássicas democracias diretas (e, consecutivamente, das “demagogias” no sentido aristotélico). Finalmente, é a perceção e sensação dos eleitores (que corresponde, aliás, à realidade) de que o seu voto perdeu peso e importância e, por isso, é preciso apostar em protagonistas que lhes prometam restaurar o efetivo valor do “seu” voto.
Democracias que, perante a cavalgada da interação direta dos média e das redes sociais, não foram capazes de absorver e incorporar essa profunda revolução tecnológica. E mais: não foram capazes de conciliar a escala territorial do direito de voto com a rápida e progressiva desterritorialização da política.
Esta análise quase completa sobre o fenómeno “Trump” nos EUA, que pode e deve ser aplicada aos fenómenos populistas nas restantes democracias ocidentais, tem um objetivo claro para Paulo Rangel - que acaba por ser o maior pecado neste bom artigo: generalizar o exemplo americano onde a economia floresce e o Presidente é popular para, em paralelo, tentar desculpabilizar o fracasso das instituições europeias na condução económica e social da União Europeia. Na prática, o articulista realça um conjunto de razões válidas sobre o fenómeno do “populismo demagógico” nas democracias ocidentais para tentar ignorar que, nos dois Continentes, o “Estado” e suas instituições continuam a falhar em providenciar o mínimo de condições humanas, de igualdade de oportunidades e de solidariedade a todos os cidadãos e Estados Membros (no caso europeu).
Mais, desconsidera flagrantemente a responsabilidade dos líderes políticos, corporativos e associativos moderados, no papel de assumirem a luta contra estes fenómenos. O oportunismo, o ego pessoal, a cobardia política e o permanente mau julgamento das circunstâncias tem sido apanágio de líderes moderados fracos, gelatinosos, que preferem não assumir as suas convicções e o seu estatuto de político ou de “parte”, para tentar agradar a tudo e todos, mas que na prática conduz a respostas vazias de conteúdo que funcionam como combustíveis para os partidos dos extremos.
Como referiu o vice-presidente da comissão europeia numa entrevista ao jornal Público: “políticos medrosos conduzem a um crescimento da extrema-direita. É preciso ter um pouco de coragem, não se pode estar sempre a dizer apenas o que as pessoas querem ouvir.”
Não é possível a um líder político, “não ser político”, ser de esquerda e de direita ao mesmo tempo, ou não ser nada disto e apenas social-democrata.
Um político assume-se, não cria paradoxos.
Se olharmos para Bernie Sanders, para o Syriza, para Trump ou Le Pen, apesar de totalmente antagónicos, por muito estranho que pareça, têm algo em comum: As pessoas consideram conhecer os seus pensamentos e convicções, por mais radicais e diferentes que sejam, face a uma realidade desgovernada, indefinida, insatisfatória e sem perspetivas de futuro e, isso dá segurança aos cidadãos.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Falemos de alternativa política nos Açores



Na passada semana os Deputados do Partido Socialista apresentaram no Parlamento Regional um voto de congratulação à proposta de lei do Orçamento de Estado para 2016 que está em discussão na Assembleia da República, tendo o PSD e o CDS/PP votado contra.
Aparentemente nada de novo nem incoerente nestes sentidos de voto, pois, como sabemos, as direções regionais destes dois partidos de direita tem seguido à risca as orientações de Passos e Portas.
Não fora o facto de este voto salientar, praticamente na sua totalidade, um conjunto de medidas presentes no documento que vêm resolver e regulamentar divergências históricas entre as autonomias e o Estado, e não estranhávamos a atitude ostensivamente agressiva e belicosa do maior partido da oposição.
Neste debate em particular não interessava aos maiores partidos da oposição reconhecer que finalmente vai acabar - após anos de diferendo! - o pagamento pela Região dos tratamentos aos doentes (Açorianos) que tinham necessidade de cuidados hospitalares nas unidades saúde do continente; que passa a ser assumida, pela primeira vez, a dívida da República referente à comparticipação suportada pela Região aos utentes da ADSE nacional no Serviço Regional de Saúde; ou que são eliminadas e revogadas as normas que interferiam nas competências da Região Autónoma, nomeadamente o controlo do recrutamento de trabalhadores pela administração pública regional e o vínculo do emprego público a termo resolutivo.
Não, nenhuma destas conquistas interessava – afinal é, certamente, coisa pouca, o Estado (finalmente) reconhecer tratar de igual forma os doentes Açorianos e os doentes continentais! – para o PSD e o CDS/PP, importava sim, proteger o Governo de Passos-Portas e falar de Sócrates.
Sim, porque quando a oposição perde os argumentos fala infantilmente de Sócrates, como se isso os pudesse redimir da sua incapacidade para se afirmar como alternativa política.
Para os mais desatentos, a atitude dos maiores partidos da oposição no Parlamento Regional tem sido permanentemente assim… - no mínimo! - eternamente contra tudo, infindavelmente (demasiado) agressiva no debate e quase ininterruptamente insultuosa contra o Governo, mesmo quando têm a mesma opinião sobre o assunto.
Não é normal que quando, posteriormente, discutimos durante três intermináveis horas, duas propostas de diplomas que irão regulamentar a relação entre os Serviços Públicos de Saúde Regionais e Nacionais, os dois maiores partidos da oposição tenham atacado “a torto e a direito” o Governo dos Açores, falando de Sócrates – outra vez! – e, no final votarem unanimemente a favor das propostas.
Não percebem - por cegueira - que reconhecemos defeitos e erros nos governos socialistas no passado, nomeadamente, na não resolução do problema do acesso em igualdade de circunstâncias dos doentes dos Açores ao SNS, como também esperamos que façam o mesmo em relação aos seus Governos e reconheçam os méritos dos que finalmente resolvem os problemas.
Mas as conquistas autonómicas aqui referidas não foram do PS ou do Governo dos Açores, foram sim de todas e todos os Açorianos, sendo por isso merecedoras de, pelo menos, um reconhecimento público ou de alguma satisfação.
Infelizmente isso não aconteceu, nem prevejo que possa acontecer no futuro, o que é muito pouco para quem se quer afirmar como alternativa 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Basta estar disponível e interessado


O convite de Vasco Cordeiro, o Presidente do Governo da Madeira deslocou-se, recentemente, aos Açores, visitando as ilhas de São Miguel, Pico, Faial e Terceira. No final desta visita foram assinados dez Protocolos de Cooperação entre os dois Executivos, assim como um Declaração Conjunta pelos dois Presidentes.
Ficaram, assim, firmados acordos em áreas tão diversas como as Pescas e a Aquicultura, a Vitivinicultura, os Recursos Florestais, a Proteção Civil e os Assuntos Europeus, entre outras.

Enquanto uns preferiram, antecipadamente, vaticinar a ausência da criação de uma de frente autonómica, que reavivasse o contencioso e a querela com a República sem qualquer efeito prático, os dois Governos apostaram num reforço da cooperação entre as duas Regiões, beneficiando, assim, mais de meio milhão de Açorianos e Madeirenses.
No fundo, os dois Governos não perderam tempo em debater aquilo que, eventualmente, os separaria, porque entrariam em áreas mais de foro partidário e menos executivas, e apostaram mais naquilo que os unia: o trabalho conjunto nos mais diversos domínios de aproximação entre os dois arquipélagos.

Aliás, basta referir que, num sistema político saudável, cabe aos Partidos Políticos e aos Parlamentos Regionais assumirem, responsável e democraticamente, posições políticas de defesa e aprofundamento da Autonomia, que possam ser materializadas nos respetivos Estatutos Políticos e Administrativos e na própria Constituição da República Portuguesa. 

Este é um processo legislativo, não executivo.

Exigir, assim, que fossem os Governos Regionais, enquanto órgão com funções executivas, a assumir o aprofundamento da Autonomia por essa via, seria uma deturpação do saudável funcionamento do nosso regime, uma menorização dos Parlamentos e uma adulteração da função dos Partidos Políticos.

Estou, aliás, convicto que os mesmos que, à partida, levantaram dúvidas sobre a pertinência e os resultados deste encontro, foram surpreendidos positivamente pela capacidade demonstrada por Vasco Cordeiro e Miguel Albuquerque para, liderando novos Governos de cor política diferente, dialogarem e cooperarem em benefício das suas respetivas Regiões.

Nesse sentido, este encontro foi, também, uma forma de os dois Governos dignificarem a Autonomia Política e Administrativa, mostrando, também, que a Madeira aparenta ter, pela primeira vez em muitas décadas, um Presidente que percebe que não é necessário atacar toda a gente, a toda a hora, para sobreviver politicamente.

Os resultados deste encontro entre Vasco Cordeiro e Miguel Albuquerque não podem, pois, ser vistos como um fim, mas antes como a construção de uns novos e sólidos alicerces num relacionamento entre duas Regiões Autónomas com benefícios nas mais diversas áreas para cada um dos arquipélagos.

Por exemplo, na área dos Assuntos Europeus, é inegável que a criação de um Gabinete de Representação em Bruxelas ganha escala ao representar, dentro da autonomia de funcionamento a determinar por cada Região, mais de 500 mil europeus que vivem em duas Regiões que, sendo ultraperiféricas, se localizam numa das mais importantes áreas geoestratégicas para a Europa: a bacia do Atlântico.

Este é, apenas, um exemplo, entre os dez vertidos nos Protocolos assinados, de como este reforço da cooperação institucional entre os Governos dos Açores e da Madeira foi planeado e estruturado, a pensar, na prática, nos verdadeiros ganhos de causa para a defesa dos interesses do mais de meio milhão de Açorianos e Madeirenses.

No fundo, é também assim que se prestigia a Autonomia. Mostrando, também, a vários responsáveis políticos da direita na Região que não vem nenhum mal ao mundo, antes pelo contrário, em cooperar e dialogar com o Governo dos Açores. Para isso, basta estar disponível e interessado. O Governo da Madeira mostrou essa vontade. Por cá, continua a ser muito difícil e é pena que assim seja!  

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

"Populismo e os políticos"


É próprio das recessões e das depressões económicas a vulgarização de um sentimento de orfandade das populações face ao “establishment” partidário moderado do centrão político. O que conhecemos da história das democracias ocidentais diz-nos que, em alturas de depressão económica, a “doutrina ou prática política que procura obter o apoio popular através de medidas que, aparentemente, são favoráveis às massas” tende a crescer, interligando a moderação e os moderados à decadência do sistema e aproximando os partidos do centrão políticos às franjas do radicalismo. 

Qualquer político minimamente arguto percebe que o elo de confiança que deve existir entre a sua dita “classe” e a população já esteve mais sólido. Não será necessário mais do que dois dedos de testa para perceber que há, sobretudo, um sentimento de abandono, daqueles que sentem que estão a passar por dificuldades e que anseiam dos seus representantes a solução para os seus problemas. 

Quando alguém está desempregado - e não tem dinheiro para contribuir para o sustento da sua família – naturalmente fica chocado em ver um seu representante passear-se em primeira classe nos aviões ou gozar de uma reforma vitalícia ao fim de 12 anos de mandato. 

Ou quando ouvimos, frequentemente, falar de ordenados milionários nas empresas públicas, dos políticos que não fazem nada, de incompatibilidades de funções que são esquecidas, das mordomias de cargos indevidas, dos “grandes interesses” que mandam, e da corrupção que grassa na administração, acabamos por generalizar um sentimento de falência do próprio sistema político. 

Mas o mais extraordinário é que este discurso popular e aparentemente despolitizado - terreno fértil para os demagogos - “contra a corrupção e contra os interesses”, é frequentemente apresentado por quadros políticos como arma de arremesso contra os adversários ou como forma de purificação pessoal. 

O discurso do moralismo despolitizado - aproveitando-se falaciosamente de meias verdades ou se preferirem, de meias mentiras – é na prática, para alguns políticos como a senhora Le Pen, na França, ou outros em Portugal - secundados por jornalistas iluminados pela sua vaidade e pelo seu “juízo” - um artifício ideológico para a imposição de doutrinas e projetos políticos com uma determinada visão tecnocrática sobre a sociedade. Esta visão tão aceite em Bruxelas e pela direita, que deseja transformar a política em matemática e os políticos em técnicos qualificados, que penaliza a ideia perante a evidência do “excel”, partilha, grosso modo, a visão do séc. XIX de que a política deve ser dos que dela não precisam para viver, ou seja, das elites. 

Para que não pense que este artigo pretende ser uma resposta “corporativa” - se é que podemos utilizar este termo – refiro que considero que a reforma ao sistema de governo deve avançar e combater qualquer tipo de abuso e suspeita sobre esta classe. 

O problema é que a discussão, tal como está a ser feita, inclusive nas eleições presidenciais, está toda errada, pois discutimos casos quando deveríamos discutir projetos, discutimos como penalizar a classe política em vez de como atrair mais e melhores quadros para a atividade. Ser contra a corrupção, contra os supostos “interesses” e contra os privilégios não pode ser um projeto político de um candidato, mas sim uma obrigação que deve enformar todo um programa político muito mais abrangente. 

O foco da discussão da reforma do sistema político nos Açores não está, de todo, na redução do número de deputados, mas sim na melhoria da representação popular e na qualidade do serviço público prestado. 

A capacidade de um candidato a presidente República não está assente no facto de ser contra as subvenções dos políticos ou se rejeita as subvenções inerentes ao seu cargo. Aliás, já não bastava ter o atual presidente da república a receber um ordenado de outra entidade que não aquela para o qual trabalha, como me choca ter um ex-presidente a trabalhar para outra entidade que não o meu país. 

A irracionalidade e a histeria vingativa, que o foco exclusivo numa discussão moral deste tipo impõe, descredibilizam a representatividade popular, enfraquecem a instituições e fecha o espaço para os verdadeiros reformadores do sistema político.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

As privatizações!?

Não deixa de ser curioso o discurso que se instalou em alguns pequenos sectores da sociedade açoriana relativamente ao papel das empresas púbicas e do Governo Regional na economia regional. Curioso porque sempre pensei que a oposição - esqueçamos os partidos neste assunto - à estratégia económica do atual Governo dos Açores seria marcadamente ideológica, protestando contra a presença do papão “Estado” na  economia que se tornava o grande obstáculo ao desenvolvimento empresarial.
Admito, que há primeira vista podiam assim parecer as posições das Câmaras de Comércio e Indústria dos Açores ou de algum diretor de jornal da nossa praça a solicitar a privatização de algumas empresas públicas como seja a SATA ou outras, mas, na verdade, “espremendo” o pouco conteúdo das posições tomadas, somos “embrulhados” num rol de contradições impercetíveis.
Por exemplo, no caso da nossa SATA, pretendem alguns líderes corporativos que se privatize a empresa. Porquê? Porque a empresa dá prejuízo aos contribuintes e porque já não serve os Açores.
Talvez importe perceber do que estamos a falar. Se o papel da SATA Air Açores é inquestionável - pois o tempo da mobilidade inter-ilhas exclusivamente por via marítima já passou – e os concursos internacionais de obrigações de serviço público inter-ilhas nos Açores ficam desertos de concorrentes privados, o papel da SATA Internacional para os Açores merece ser minimamente analisado.
Se não fosse a SATA Internacional as ilhas do Pico e do Faial tinham ficado sem acessibilidade direta ao Continente português após o abandono da TAP. Talvez o leitor desconheça a grande mudança que motivou o abandono da TAP destas rotas: o facto de esta ter que se preparar para privatização,  o que não é compatível com serviço público.
Talvez conviesse perguntar às autoridades madeirenses - sim, ao Governo Regional do PSD! - e aos empresários locais - da principal razão para considerarem que o seu modelo de liberalização do espaço aéreo falhou nos seus principais propósitos, quando comparado com a liberalização das acessibilidades açorianas.
A resposta será clara! Porque as companhias que para lá voam - duas apenas! – optaram por transformar o mercado madeirense num oligopólio, maximizando preço, em detrimento da mobilidade dos passageiros. Em São Miguel e na Terceira, a presença da SATA Internacional permitiu coartar a concretização dessa tentação.
Se, por tudo isto apenas, fica claro o papel fundamental de uma SATA Internacional pública, a indução permanente, que alguns jornais e líderes corporativos fazem, de que esta empresa causa prejuízos diretos aos contribuintes açorianos é falsa, pois o Governo para injetar fundos na empresa precisa de autorização especial da Comissão Europeia, o que não aconteceu.
A indução deste raciocínio nos Açorianos é grave, porque doloso, e porque é profundamente contraditório com a ação destes protagonistas. Não é aceitável que os mesmos que criticam os prejuízos da empresa e pedem a sua privatização, sejam os mesmos que solicitam que a mesma realize mais voos charter para trazerem turistas ou que aumente as frequências semanais para as gateways que dão prejuízo.
São estes mesmos responsáveis corporativos - tão ansiosos com a saída do “Estado” da economia regional - que vem solicitar ao executivo regional a criação de um banco açoriano, ou manifestam insatisfação pelo facto de a solução adotada para o BANIF não proteger os acionistas privados.
Por muito que me agradasse um debate ideológico sobre este assunto, estas posições são tudo menos de direita ou de esquerda… A este propósito refiro uma situação que ocorreu na Comissão de Inquérito ao grupo SATA que caricatura bem o tipo de “postura” e de crítica de que estamos a falar.
Quando confrontado incisivamente por um deputado da oposição com a acusação de que a SATA tinha prejuízos nas suas rotas para fora dos Açores que não otimizava os seus recursos, um ex-responsável da empresa salientou, por exemplo, que no caso particular da rota Ponta Delgada- Funchal a substituição em operação de um A320 por um Q400 tinha permitido que a rota passasse de deficitária a lucrativa. A resposta do deputado da oposição foi imediata, “pavloviana” e ao mesmo tempo inacreditável, acusando a empresa de ter uma rota com lucros e não de ter baixado as tarifas para passageiros. 


terça-feira, 9 de junho de 2015

Bonito Paradoxo

Conheço alguns quantos que não reconhecem a data 25 de abril pelo seu real significado. São mesmo mais do que alguns, infelizmente -digo eu!- pelo que vejo e ouço. Eles não percebem, julgo até, que acham graça a não perceber -e a ser do contra!- essa coisa do dia da liberdade e dos cravos, que nos dá, ainda, um feriado laboral.

"É coisa de velhos! Das canções do Zeca Afonso! Da esquerda! dos comunas! Da canção do Paulo de Carvalho que não é aquela da fogueira com os meninos... Do velho Soares que não se cala, quando devia estar de pantufas em casa!!!", dizem com a arrogância da certeza que só a ignorância conforta - sim! Nem os velhos desses tempos escapam. Porque ser velho nos novos dias de hoje é ser um encargo inútil para a sociedade ou um incrível chato (repleto de senilidade) inconveniente para o politicamente correcto e para os tempos mediáticos dos comentadores especialistas em especialidades ou dos taxistas amadores no facebook.

Da minoria que no antigo regime governava a maioria - o povo!(palavra tão fora de moda, agora)- passamos para um governo que representa a maioria.

E tudo mudou!

O que era necessariamente básico - o sufrágio universal directo, a liberdade de expressão (crítica e reivindicação), a electricidade, água e saneamento, o ensino universal e, a saúde para todos acessível- banalizou-se - afinal já lá vão mais de 40 anos!

Soares que lutou pela existência da democracia, pela existência do PPD/PSD e do CDS, pelo fim da unicidade sindical, pela diminuição do poder dos militares e pela adesão à CEE, é velho!
Tal como churchill não servia em tempo de paz, Soares chateia pela sua obsessão pela liberdade, igualdade.

Já vamos noutra!

Damos, naturalmente, mais atenção às falhas do sistema democrático, do que às suas óbvias vantagens, pois estas são aparentemente inalienáveis.

E com alguma razão afinal a classe política, entre muitas outras, falhou em algumas coisas.
As minorias - outras, que não as do antigamente, mas nem sempre as melhores - ganham representação, não só nos meios institucionais, mas, sobretudo, nos meios mediático/sociais.
Gostamos de qualificados tecnocratas, porque nos conforta mais a proximidade com a ciência do que a subjetividade da decisão ideológica.

Não me canso de lembrar que os meus adversários mais vezes me inquiriram sobre as minhas qualificações, do que sobre os resultados do meu trabalho.

Que as redes sociais nos Açores falam mais de transportes aéreos do que em desemprego.
Tudo se desproporciona.

Cultivamos o inconseguimento colectivo português, sempre conjugado na terceira figura do plural: "eles!"
"Eles, os políticos corruptos!"
"Eles, os empresários incompetentes e gananciosos!"
"Eles, o povo ingovernável"

Nada escapa à crítica ou à reivindicação.

Muitos desses recusam-se orgulhosamente a usar o cravo na lapela.

Muitos lembram saudosamente o antigo regime que não conheceram como rejeição ao atual sistema.
São ignorantes!

Não percebem o bonito paradoxo desta rejeição.

Afinal a celebração do 25 de Abril é isso mesmo...

Está à vista!


A realidade e a perceção “mediática” da conjuntura nem sempre andam a par. É habitual que assim seja: cruzam-se na interpretação das realidades as perceções dos intérpretes motivadas pelos seus interesses, sejam eles corporativos ou até partidários.

É do interesse de um partido político, como nos casos do PSD ou do BE, propagandear um quadro de crise económica e social generalizada na Região, pois essa perceção negativa sobre a atividade do Governo, beneficia, obviamente, o seu interesse de ocasião.

Da mesma forma que uma Câmara de Comércio nos Açores, ou uma organização representativa de um sector de atividadesocio profissional, quando salienta a necessidade de apoio a um determinado sector ou as dificuldades de uma área em particular está a – nos casos em que age com boa-fé - cumprir o seu dever de alerta e ou reivindicação perante o Governo.

Mas essas manifestações devem estar minimamente alinhadas com a realidade, pois podem correr o risco de se tornar caricatas perante os seus destinatários e falhos de credibilidade em geral.

Manifestamente em algumas reações/reivindicações fica no ar essa sensação de que muitas dessas organizações e pessoas dizem porque acham conveniente dizer e não porque pensem como dizem.

Não se percebe como determinados partidos falam de um plano inclinado de degradação e crise, quando a atividade económica cresce nos Açores 4,2% no último ano e o desemprego desce nos Açores, no último trimestre, acima da média nacional para 14,8%

Tal como não se percebe que uma Câmara de Comércio se queixe da baixa do turismo numa ilha, quando a realidade afirma exatamente o contrário este tenha crescido, 13,4%.

E não só. Que significado pode ser atribuído, em abono da verdade, a indicadores como os que se seguem, se não o do sentido de uma melhoria significativa? Como se pode empurrar para baixo o que está a caminhar para cima?

O crescimento do turismo nos Açores no primeiro trimestre de 2015 foi de 23,8%;

O crescimento de passageiros nos aeroportos dos Açores no primeiro trimestre de 2015 foi de 19,5%;

O crescimento do número de edifícios licenciados nos Açores no primeiro trimestre de 2015 foi de 10,1%;

O crescimento do leite entregue nas fábricas no primeiro trimestre de 2015 foi de 12,7%;

O crescimento da venda de automóveis ligeiros (pelo 8º trimestre consecutivo) no primeiro trimestre de 2015 foi de 38,8%;

O crescimento da saída por via aérea de peixe fresco (exportações) no primeiro trimestre de 2015 foi de25,4%;

O crescimento da constituição de empresas nos Açores no primeiro trimestre de 2015 foi de 5,8;

A diminuição de dissolução de empresas nos no primeiro trimestre de 2015 foi de (-38,1%)

O crescimento de pagamento de serviços por multibanco no primeiro trimestre de 2015 foi de 5,48%.

Aos olhos e ouvidos de quem quiser ver e ouvir, sem fechar os olhos nem tapar os ouvidos, custa ouvir dizer o contrário do que se está a ver.